Guia básico do ódio S1EP1

“Capoeira”
Todo mundo sabe que os estereótipos têm uma função dentro da imaginação humana. Servem pra simplificar a nossa visão de mundo, agregando pessoas de características aparentemente semelhantes dentro de grupos dos quais nós esperamos um certo padrão de comportamento. Ou seja, asiáticos são bons em matemática e andam sempre filmando as coisas, alemães são nazistas e jogam na bola alta, negros gostam de tambor e vão sempre ser mais vigiados pelos seguranças quando entram em lojas de eletrônicos, árabes são terroristas e odeiam judeus, judeus são sovinas e odeiam árabes e por aí vai. Claro, esse tipo de processo mental quase sempre é uma simplificação preconceituosa vinculada a conceitos que reduzem a individualidade humana a apenas algumas características, ignorando toda a complexidade da personalidade de cada um de nós. Mas pô, nós somos assim, fazer o que?
E eu, por ser filho de branca com negro (o que me tornaria, pela palheta de cores da Suvinil, “cinza”), sempre fui acompanhado de vários dos estereótipos do meu grupo étnico. Ou seja, pela lógica de muita gente eu teria que gostar de pagode, saber jogar bola, curtir um pancadão e coisas do tipo. E uma das coisas das quais parece que eu teria obrigação de gostar é a maldita capoeira.
Eu digo maldita porque, ainda que eu não tivesse nada contra a coisa no começo, com o tempo eu fui desenvolvendo um certo ódio pelo conceito. Primeiro por causa da idéia de que, apenas por ser da cor que eu sou eu teria que gostar de capoeira (se eu fosse chinês teria que lutar kung-fu? Se morasse no sul dos EUA teria que ser da KKK? Ok, sim pras duas perguntas…) e segundo pela cara que algumas pessoas fazem quando eu digo que acho capoeira um saco (“meu deus, ele é preto e não gosta de capoeira? É um traidor da raça…Martin Luther King e Zumbi chorariam vendo isso…Aposto que também não gosta de Racionais…”).
Outro ponto principal é que eu simplesmente não entendo capoeira. Claro, como manifestação cultural eu até saco o significado, a validade da coisa. Mas e de forma prática? Não é uma luta, como um judô ou um boxe. Já foi, mas hoje não é. Não é uma dança, acho. Se disser que é uma dança soa gay, não sei. E eles usam o termo “jogar”. Mas não tem pontuação, entende? Não dá pra saber quem ganha, quem perde, quem empata, coisa do tipo. E como que a gente decide quem sai pra entrar o que está de fora? Tem tempo? Existe campeonato? Como troca de faixa? Ou é corda? Vale voadora? Vale usar armas brancas? Existe capoeira por equipe? Revezamento?
Mas claro, além de tudo isso, tem a coisa que mais me dá ódio, a coisa que realmente me impede de vir a, seja na época que for, praticar capoeira: o berimbau. Nenhum instrumento musical, da cultura que for, da época que for, desde a gaita de fole até a escaleta, passando pelo tambor e pela cuíca, me irrita tanto quanto o berimbau. É imediato, eu ouço o berimbau e quero matar alguém, na hora, sem pensar. O sangue surge em meus olhos, minhas mãos tremem e o descaso pela vida humana toma conta de mim. Desconfio que se eu tivesse nascido na Bahia eu seria um dos serial killers mais perigosos da história (algo como “O Demônio do Pelourinho” ou “O Maníaco do Elevador Lacerda”).
É, eu posso tentar ser tolerante, paciente, sem preconceitos, mas eu realmente odeio capoeira…E o que é paranauê, só pra constar?